Pensar cansa! Tomar decisões e assumir a responsabilidade por elas, mais ainda!



Quando eu era responsável por tretas jurídicas em 14 BUs e por uma equipe de 15 pessoas espalhadas por aí, eu vivia insone pensando em pepinos cuja decisão - e responsabilidade - seriam exclusivamente minhas.


Normalmente tudo dava certo, eu recebia tapinhas nas costas e algumas promoções. Mas poderiam não dar. Poderiam dar muito errado e ter consequências desastrosas, incluindo meu próprio emprego e o de outras pessoas por quem eu era responsável.


Eis que eu, que sofri muito com síndrome da impostora, que diversas vezes achei que estavam me fazendo um favor ao me promoverem (não importando o quanto eu trabalhava e era excelente no que eu fazia!), que já me senti uma fraude por estar naquela posição (mesmo ganhando metade do homem que a ocupou antes de mim com muito menos dedicação e resultado!) me dei conta de que o valor que me pagavam, tão acima da média dos meus contemporâneos não era porque eu executava ou sabia muito mais do que os outros.


O valor que me pagavam era por não parar de pensar nunca! Era pela responsabilidade pelas decisões e por usarem cada compartimento disponível do meu cérebro.


Era pela carga mental que me pagavam e muito bem, com direito àquele pacote irresistível de benefícios que é o que eu mais sinto saudades do mundo corporativo.


Muitas mães com quem converso seja na minha pesquisa, nos meus atendimentos ou mesmo aqui nas redes sociais, me perguntam como explicar a carga mental aos homens, especialmente aos pais participativos da nova geração que acreditam realmente que estão fazendo muito mais do que seus próprios pais, tios, avôs jamais cogitaram - e muitas vezes realmente estão? Como explicar que pensar, planejar, saber de tudo sobre tudo, cansa e cansa muito?


Bem, se o homem a que você se refere for um dos que ganha pelo uso do seu cérebro, esta pode ser uma boa analogia: pensar cansa! decidir e ser responsabilizada pela decisão, mais ainda!


Mesmo que saber onde estão as meias, se as fraldas estão acabando, o nome de todos os amigos da escola ou o número do pediatra pareça não ser tão difícil ou relevante quanto decidir sobre orçamentos, metas, cortes de headcount, a verdade é que eles ocupam um tanto de espaço do seu cérebro com o adicional de serem tarefas absolutamente invisíveis e desvalorizadas (assim como tarefas domésticas no geral). Você não recebe tapinhas nas costas e muito menos promoções por deixar todas as coisas em ordem e saber de cabeça onde está aquele moletom verde de dinossauro que a criança quer usar a todo custo e o pai jura que não está no armário (spoiler: normalmente está exatamente onde você disse que estava antes de ter que se deslocar até lá para mostrar!)


Isso me leva às pesquisas publicadas recentemente no New York Times e divulgadas por aqui em diversos veículos, incluindo a Folha de São Palo [1] sobre a resistência das novas gerações de incluirem a divisão igualitária das tarefas domésticas em sua vida.


"Os dois novos estudos foram baseados em pesquisas repetidas ao longo do tempo. Eles demonstram que hoje as mulheres fazem um pouco menos tarefas domésticas e cuidam dos filhos um pouco menos, enquanto os homens fazem um pouco mais. Mas ainda há uma diferença importante —as mulheres ainda passam uma hora por dia mais que os homens cuidando das tarefas domésticas e uma hora a mais cuidando das crianças, revelam outras pesquisas."


Os pesquisadores parecem ter se surpreendido com o fato de que a divisão de tarefas domésticas não está muito diferente hoje do que há meio século, ainda que tenham ocorrido importantes avanços, por exemplo, na ideia de que mulheres devem ter uma carreira, inclusive em posições de liderança. Não chocou a mim.


Primeiro porque é sempre bom lembrar-se do fato (importante!) de que a realidade é composta por muito mais do que a nossa bolha de mulheres de classe média, perseguindo realização individual em uma carreira. Estudos mostram, por exemplo, que mulheres de diferentes classes sociais lidam com o trabalho fora de casa de forma bastante diversa, atribuindo diferentes sentidos a suas identidades de mulher, mãe e trabalhadoras.


"Nas camadas médias, o trabalho feminino é um projeto individual, elaborado no interior de uma história familiar (VELHO, 1987), apesar de circunscrito pela cultura. É uma atividade voltada para a satisfação pessoal que, além de proporcionar status, leva ao crescimento individual, faz parte do processo de constituição da identidade."


Ao passo que:


"Nas famílias das camadas populares, o trabalho feminino assume muito mais o sentido de um benefício para a família do que uma afirmação da individualidade (SARTI, 2003). As relações familiares seguem um padrão de autoridade e hierarquia, o que dificulta a afirmação individual. Há uma predominância dos deveres em relação aos familiares sobre os projetos individuais. Melhorar de vida é um projeto familiar, é observar a família progredir." [2]


Deus me livre de fazer mais um daqueles textos universalizantes que tratam de uma "geração que" sendo que, na verdade, estamos falando de segmentos privilegiados da sociedade que eu A B S O L U T A M E N T E não pretendo tratar como uma realidade única.


Dito isso, o resultado da pesquisa não me chocou também porque eu conheço essas mulheres e sei que na prática, para além do textão no instagram em que vai a foto do maridão participativo e "melhor pai do mundo" tem choro solitário e desabafo com as amigas no WhatsApp, tem cansaço extremo e uma sensação de injustiça enorme quando a sogra ou a mãe lhe pedem para parar de reclamar visto que ela deveria mesmo era agradecer de joelhos porque na época dela os pais nem fralda trocavam.


Eu conheço e convivo com essa mulher que se sente tão exausta mesmo contando com alguma rede de apoio (paga ou não) e não consegue entender de onde vem tanto cansaço. Ele até lava a louça e brinca com os filhos com verdadeira disposição.


Recentemente, durante uma palestra sobre maternidade e carreira em São Paulo, ao falar de carga mental as mães ali presentes me perguntaram sobre como eu lidava com as viagens, como meu bebê lidava, etc. Acabamos entrando no assunto organização e uma delas disse: "mas aposto que você deixa tudo organizado para quem vai ficar com ele e controlando tudo a distância." Todas riram juntas e não conseguiram disfarçar a cara de choque quando eu disse que não fazia nada disso, ao contrário. Eu sou centralizadora e controladora quando não me policio e, na liderança e na maternidade (que by the way tem muitas semelhanças sobre as quais escrever) eu faço questão de me policiar para deixar que o pai assuma sua parte livremente. Eu não me importo com que roupa ele vai usar ou se estará combinando. Eu mesma nem sou lá essas coisas do estilo. Eu não me preocupo se ele comeu ou não quando está COM O PAI DELE!


Sim, eu mando mil mensagens para pedir fotos e pérolas quando estou com saudades, mas eu também aproveito a distância para descansar, dormir com qualidade, ir pro bar e encontrar amigas. Ou simplesmente para fazer NADA!


Não é porque eu nasci com um chip diferente ou porque eu tenha atingido a iluminação do nirvana materno, mas porque eu conscientemente escolho não me colocar no lugar de única e melhor cuidadora do meu filho. Eu tenho essa possibilidade, esse privilégio e eu escolho utilizá-lo de forma que, além de dividir a responsabilidade com quem também a tem, passe ao meu filho a mensagem que eu entendo correta quanto à divisão dessa carga.


Não a toa, as mesmas pesquisas aqui apresentadas indicam que aqueles cujas mães trabalham em tempo integral são os que mais provavelmente desejam um esquema semelhante.


Este texto não é para todo mundo, ele tem um recorte bem específico, mas ele é para muitas! A começar pelas tantas que me escrevem sobre os sentimentos ambíguos em relação a seus maridos que, elas sabem, está muito acima da média.


É que a média é baixa mesmo gente!


Precisamos urgentemente melhorar essa nota de corte e a gente precisa fazer isso enquanto nos relacionamos amorosamente com esses mesmos homens. Isso é muito desafiador porque não é uma hashtag como a #porramarido que irá resolver porque alguns deles estão realmente achando que estão dividindo as coisas de forma igualitária e zombar disso não me parece o meio mais eficaz para realmente prender sua atenção.


Bem, as pesquisas estão aí para mostrar que os resultados tem sido bem aquém do esperado então acho que no mínimo a gente precisa repensar essa estratégia!


Infelizmente, mulheres que tem a possibilidade de compartilhar o cuidado com os filhos ainda são minoria. Infelizmente, poder focar no seu desenvolvimento e no da sua carreira, da sua realização e da sua identidade é um privilégio de pouquíssimos, homens, ou mulheres.


Portanto, você mãe de classe média ou alta que está se sentindo atolada, desprestigiada e cansada e não sabe bem o porquê, que está pensando na sua carreira e na sua maternidade e no quanto elas parecem não convergirem para que você realmente possa dar o melhor de si em cada uma delas, meu pedido para você é: use com sabedoria o seu privilegio que é, infelizmente, tão raro!


Permita-se!


Permita-se curtir seu sábado sem se importar com que roupa o pai irá colocar na criança. Pode acreditar: ele vai saber se virar! Homens não dominam o mundo há séculos sendo incapazes de cumprirem tarefas simples como vestir uma criança. Eles só são "desligados" dessas coisas porque ainda é cômodo e porque muitas vezes falta a algumas mulheres abrir este espaço do domínio doméstico que, de certa forma, tornou-se um espaço também de poder. Acredite: este tipo de poder não vale tudo aquilo que perdemos em troca (e isso é tema para outro momento!)


Permita-se deixar seu filho com outra pessoa e realmente relaxar! Curtir seu programinha em paz sem se importar em deixar tudo organizado e de fácil acesso.


Permita-se não saber tudo!


Permita-se não precisar pedir e deixar que as pessoas se virem e sim, errem e depois arquem com as consequências desses erros. Nós fazemos isso o tempo todo!


Eu ainda queria falar sobre o porque considerar que apenas atribuir uma remuneração para esta carga mental pode ser problemático; sobre como terceirizar 100% das tarefas de reprodução a outras mulheres também não é um caminho legal e eu posso provar..., mas hoje é sábado e eu to sem filho em casa então vou aproveitar para ler um pouquinho e ouvir um som porque eu mereço!


Espero que você possa fazer o mesmo e sem culpa!


[1] Homens jovens abraçam a igualdade de gênero, mas ainda não querem passar o aspirador de pó. Folha de São Paulo 14.02.2020


[2] Mãe, Cuidadora e Trabalhadora: As múltiplas identidades de mães que trabalham. Leila Sanches de Almeida.

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